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Da fome à mesa dos turistas: como Tia Dica transformou dificuldades em um negócio O arroz de cuxá, um dos pratos mais populares do Maranhão, é o carro-chef...
Da fome à mesa dos turistas: como Tia Dica transformou dificuldades em um negócio O arroz de cuxá, um dos pratos mais populares do Maranhão, é o carro-chefe do cardápio da "Cafofinho da Tia Dica". O restaurante que pertence a empreendedora Raimunda de Jesus Sá, serve esse e outros pratos típicos maranhenses no Centro Histórico onde um dia chegou sem dinheiro, sem profissão e fugindo da fome. 📲 Clique aqui e se inscreva no canal do g1 Maranhão no WhatsApp Conhecida carinhosamente como “Tia Dica”, ela transformou uma trajetória marcada por dificuldades em um negócio que, além de rentável, ajuda a preservar a cultura tradicional maranhense e impulsiona a economia do Centro Histórico de São Luís. Sem uma receita de família herdada, Tia Dica construiu sua trajetória a partir da necessidade. As dificuldades enfrentadas na infância se transformaram em motivação para trilhar o caminho do empreendedorismo. Hoje, cada prato servido carrega não apenas ingredientes, mas também uma história de superação, trabalho e identidade. Reconhecimento regional Natural de Bacurituba, município localizado a 136 km de São Luís, Tia Dica se tornou uma referência da culinária maranhense ao construir sua trajetória na capital com pratos que valorizam os sabores e as tradições do estado. Em um depósito cedido pela ex-chefe, Tia Dica e Nhozinho, marceneiro da região, transformaram o espaço em seu primeiro restaurante. O empreendimento conquistou o público e passou a receber até personalidades da televisão brasileira, como Chay Suede, Lázaro Ramos e Débora Bloch. Cafofinho da Tia Dica Reprodução/Arquivo pessoal No restaurante, ela também coleciona troféus muito importantes, que além de servirem como decoração especial, ajudam a contar ainda mais a história de vida e trabalho. Entre eles, o 1º lugar na categoria petiscos com o pastel de vatapá, no Festival Maranhão de Sabores, além do 1° lugar na categoria atendimento, dedicação e esforço, que tornam o empreendimento em um local que alimenta turistas, moradores e a própria memória gastronômica do Maranhão. O caminho até a cozinha Tia Dica, dona do empreendimento Cafofinho da Tia Dica Reprodução/Arquivo pessoal Entre o trabalho e os estudos, Tia Dica conseguiu concluir a formação escolar. Ela conta que após a conclusão do ensino médio, buscou novas oportunidades de obter renda e melhorar a sua qualidade de vida, e foi nesse momento que ela decide viajar para a capital do Rio de Janeiro. Na casa de uma família carioca, trabalhou por cerca de seis anos como babá, a dinâmica da cozinha ainda era vista como um trabalho doméstico, sem muitas pretensões. No Rio de Janeiro, conheceu um maranhense e se apaixonou, o que fez ela retornar à São Luís, já grávida de seu primeiro filho. De volta à cidade, com a responsabilidade de criar o filho, buscou qualificação profissional. Tia Dica relembra que o primeiro curso que realizou, foi o de operadora de caixa no Senac, que permitiu a ela trabalhar no Restaurante Tia Nadi. Cedido por Ana Lula, o imóvel foi o ponto de partida para a criação do Cafofinho da Tia Dica. Reprodução/Arquivo pessoal Por cerca de um mês, atuou como atendente de caixa, entendendo como funcionava a dinâmica de um restaurante, só que logo após esse período, o estabelecimento encerrou as atividades. Sem aviso prévio, os funcionários chegaram ao local e encontraram as portas fechadas. Durante a espera na calçada, Ana Lula, antiga proprietária do Restaurante Antigamente que passava pelo local, se deparou com os funcionários do estabelecimento na frente das portas fechadas e explicou que o dono havia ido embora pela madrugada, fugindo de contas que devia. Tia Dica começou a conversar com Ana Lula, que a ofereceu uma oferta de emprego. "Ela me convidou pra trabalhar com ela, e aí eu fui pro restaurante dela trabalhar, mas eu não sabia cozinhar, eu gostava, mas eu não sabia." diz Tia Dica. Ana Lula, conhecida também como Juja, faleceu no ano de 2021 em decorrência de problemas de saúde, em vida atuava como proprietária do Restaurante Antigamente e de uma lanchonete localizada na Escola Técnica do Monte Castelo, local que Tia Dica começou a trabalhar nos serviços gerais. Ana Lula era uma das mais destacadas culinaristas do Maranhão Arquivo pessoal O interesse de Tia Dica pela culinária levou Juja a transferi-la da função, de serviços gerais para a cozinha, onde passou a atuar como auxiliar. Com dedicação e talento, ela conquistou espaço na equipe e, mais tarde, tornou-se chefe de cozinha do restaurante, cargo que ocupou por 20 anos. Após esse período, Juja precisou vender o restaurante e demitir os funcionários, agora desempregada novamente, Tia Dica buscou uma nova forma de gerar renda, e foi em uma barraca localizada no Mercado das Tulhas, cedida por Juja, que ela começa a vender cachaças. 🔎O Mercado das Tulhas, considerado a feira mais antiga de São Luís, é um dos principais pontos de comércio e cultura da capital, reunindo produtos da gastronomia maranhense e do artesanato local. Ao perceber a baixa procura, Tia Dica decidi investir na venda de caldo de ovos, farofa e produtos conhecidos da região. "Comecei a fazer comida em casa, na Cidade Operária, e levava pra vender na feira. Eu esquentava num fogãozinho de duas bocas. Um dia, Juja me sugeriu usar um depósito que estava abandonado." recordou. O que começou em um simples depósito cedido por Juja se transformou em uma trajetória empreendedora de sucesso. Com trabalho, determinação e talento na cozinha, Tia Dica construiu um negócio que hoje é referência na culinária maranhense. Foi naquele primeiro endereço que o Cafofinho da Tia Dica funcionou por cerca de 17 anos. Ao longo desse período, o restaurante conquistou uma clientela fiel e construiu um legado marcado por receitas que atravessam gerações. Atualmente, o empreendimento está instalado em um novo endereço, no prédio de esquina entre as ruas Portugal e Estrela, no Centro Histórico de São Luís. Da fome ao fogão; como Tia Dica transformou dor em negócio e tradição no Maranhã Reprodução/Arquivo pessoal Sabores que movimentam a economia local Hoje, formalizada como microempreendedora individual (MEI), Tia Dica faz parte de um movimento que vem transformando o cenário dos pequenos negócios no Maranhão, que atualmente conta com mais de 41% de participação feminina em empreendimentos formais e ativos, ultrapassando a margem de 37% em 2020, segundo o Sebrae. Dados da Unidade de Inteligência de Dados do Sebrae mostram que os pequenos negócios liderados por mulheres saltaram entre 2024 e 2026, passando de 118.360 para 145.367, alcançando a marca de quase 23% no período. Mais do que números, esses indicadores revelam histórias como a dela: mulheres que encontraram no empreendedorismo uma oportunidade de gerar renda, conquistar autonomia e transformar a própria realidade. Da fome ao fogão; como Tia Dica transformou dor em negócio e tradição no Maranhão Foto: Jéssica Pinheiro O economista Danilo Pereira destaca que iniciativas como a da Tia Dica representam uma estratégia eficiente de desenvolvimento sustentável para o Maranhão, que unem protagonismo feminino à riqueza gastronômica, não sendo apenas uma agenda de preservação cultural, mas uma estratégia de desenvolvimento econômico e sustentável altamente eficiente para o Maranhão, contribuindo para a sustentabilidade cultural e o fortalecimento do turismo local. “O empreendimento da Tia Dica funciona como uma "âncora" no Centro Histórico de São Luís, ele atrai um fluxo de pessoas que aumenta a sensação de segurança, valoriza os imóveis ao redor e estimula a abertura de outros pequenos negócios na vizinhança, é a economia da cultura gerando revitalização urbana." explica o economista. Segundo dados da Junta Comercial do Maranhão (Jucema), os empreendimentos femininos se concentram principalmente nos setores de Comércio, com 73.507 negócios, e de Serviços, com 63.501. Juntos, esses segmentos sustentam a dinâmica econômica das cidades e impulsionam a circulação de renda no estado. "O empreendimento distribui renda na base da pirâmide social e fixa o valor gerado dentro do próprio Estado”. disse o economista Danilo Pereira. Segundo indicadores da Unidade de Inteligência de Dados do Sebrae, o avanço ganha destaque entre 2024 e 2025, quando mais de 21 mil novas empresas comandadas por mulheres foram abertas, sendo cerca de 63% registradas como MEI. No "Cafofinho da Tia Dica", cada prato servido carrega a história de quem transformou necessidade em permanência. “O momento atual do empreendedorismo feminino é de consolidação e expansão. Cada vez mais mulheres estão transformando ideias em negócios, buscando capacitação e ocupando espaços estratégicos na economia maranhense." diz a coordenadora de ações de empreendedorismo feminino do Sebrae, Reijane Almeida. Tia Dica e seus funcionários Reprodução/Arquivo pessoal *Estagiária supervisionada por Rafaelle Fróes.